sábado, 29 de janeiro de 2011

Desencanto

O livre arbítrio é um embuste, Deus utilizou de uma filosofia política para engendrar seus planos aos seus eleitores. Tenho sido prova viva dessa artimanha.
Quando pensas estar escolhendo, não sabes o que há devir, os acasos, as coincidências, não existem, tudo faz parte de um plano, que dizem ser divino.
Minha coragem de enxergar o óbvio me aniquila e dificulta, e não há negociações nem chance de alterar nenhuma rota. É como caminhar acorrentada ao destino, me sinto resignada, mas não calo minha revolta e meu tormento.
Quando ele me trouxe à vida, com seu plano já designado, não acertou de propósito na dosagem das qualidades e defeitos, talvez tenha me cedido paciência e resignação demais e clareza de objetivos de menos, já que minha história estaria interligada a outros seres. Talvez tenha esquecido o pudor, e por ele pago indulgências sofridas. Chego em um momento em que questiono a criação, a qualidade do sofrível perante a meta que foi proposta. Quais garantias teria eu, pretenso precursor de alguém, de acertar em tudo e ainda dar conta do entorno? Não há garantias, tudo é uma incógnita. Por que colocaste em minha essência vital tantas falhas?
Deus está experienciando o tempo todo, com todos...
Quando tudo perde o encanto, e nem o sol empresta seu brilho à lua, onde encontrarei alegria em viver?
Em algum momento da vida o desencanto tomou conta de mim...enxerguei a verdade.



Rozety Dutra Domingues

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O vento leva...

O que restou? Nada, nem aprendizado, vão sempre achar alguém mais fraco para expugnar a culpa.
O cheiro da morte invade Teresópolis, caminhei ao entorno das carretas frigoríficas que armazenam os corpos que foram encontrados, digo isso porque sabemos que há lugares em que tem lama e areia em uma profundidade de mais de 4 metros. Quantos seres estão sob a terra, e lá ficarão para sempre? As autoridades não divulgam para não repercutir lá fora. A natureza tomou de volta o que sempre foi dela, nosso planeta é vivo.
Perdi amigos, alunos, conhecidos, filhos perderam pais, pais perderam filhos, e famílias que se foram inteiras.
Enormes pedras forraram o leito de um rio que provavelmente existiu naquele lugar há milhares de anos.
Que todos que assistiram ou presenciaram essa tragédia conseguissem enxergar a pretensa importância do homem. Somos formiguinhas manipuladas em função da nossa ignorância espiritual.
A deusa mãe, a terra, está em constante transformação sem importar-se com os seres que nela habitam, são parasitas, sobrevivem numa eterna cadeia alimentar gigantesca e já sem equilíbrio. Caminhamos para o fracasso, não foi de comum acordo com a deusa mãe que Deus criou o homem, verme humano, que a tudo contamina, que a tudo destrói, e quando morre apenas o que resta é o mau cheiro, que o vento carrega e dissipa, porque faz parte da função dele.



Rozety Dutra Domingues
Noite de terça para quarta-feira, dia doze de janeiro 2010, o tempo já estava chuvoso, férias de professora, nem sempre dá para viajar, não tem grana, quisera ter dias bonitos de sol. Estava ansiosa, não que minha casa seja área de risco apesar de estar localizada em um morro de Teresópolis, mas a chuva aumentava e minha angústia também, os relâmpagos intermitentes e o ronco contínuo dos trovões me diziam mais que uma chuva de verão, não consegui dormir, noite longa, qualquer barulho diferente me deixava em pânico, talvez estivesse não só ouvindo o ronco dos trovões mas os dolorosos pedidos de socorro. Quando enfim amanheceu e olhamos as montanhas foi aterrorizante, por todos os lados haviam barreiras, como se as montanhas estivessem se desmanchando. Como somos pequenos diante de tanta força da natureza, as pedras, a lama, árvores desceram das encostas levando tudo, casas, pessoas, carros, animais e a pretensa segurança que achamos que temos. Mais de 800 mortos, a serra está de luto e há uma imensa tristeza ao redor.


Rozety Dutra Domingues